Currículo de Euclides Neto
Euclides Neto
Ipaiaú, BA - 1993
Idade – 70 etc.
Natalidade – num lugar chamado Jenipapo. Fazer turismo em Paris, é porque não conhece esta terra.
Filiação – Patrício e Edite. Criaram o menino mais feliz do mundo.
Profissão – criador de cabras.
Comida – feijão com jabá, bucho de bode e farinha de pancaré.
Fruta – jaca.
Flor – qualquer uma desde que não seja de plástico.
Arrependimento – do que não fez.
Romance – cordel, desde o A Mulher que Comeu o Beiço do Jegue Pensando que era Arroz-Doce, do clássico Cuíca de Santo Amaro, vendido na feira do meu arraial, até os menores Dom Quixote, Mercador de Veneza, Grande Sertão, Guerra e Paz, Os ratos, Calunga, Maleita, vendidos igualmente em feiras internacionais menos conhecidas.
Música – ÔI Tá Doido Mangangá, das chulas e Primeiro Amor Nº1 dum camarada que chamam de Chaicosvisque.
Pintura – as das crianças reproduzindo casinhas, bichos e árvores, antes de pensar que são pintores.
Escultura – a que minha avó Fulô fazia com barro, representando vaquinhas, burrinhos e criame miúdo, para que eu vadiasse.
Casado – há uma banda de século, com a mesma vítima, Angélia, noivando ainda diariamente.
Leitura preferida hoje – bula de remédio e outras obras primas da farmacologia, para saber as moléstias que causam.
Inveja – dos que tiveram a coragem de cometer os pecados que os hipócritas condenam.
Religião – agnóstico, devoto de Santa Teresinha.
Perfume – sabão de coco e terra molhada no cio, depois das chuvas das trovoadas.
Roupas – que não apertem, com saudades da que minha mãe costurava de zefi, alvejado e bulgariana.
Sapato – ao que me leva ao chiqueiro, à Catedral e ao sebo.
Amigos – amo-os, deles tenho saudades se não os vejo há três dias.
Filhos – uma quina, já brotados quatorze vezes. Sempre dei mais trabalho a eles do que eles a mim. Dos genros: se tivesse de escolhê-los, teria os que me deram os netos. Noras: idem.
Gurus – Gandhi, Tolstoi, o tropeiro Dário, Marx, Cristo, Dr. Rodolfo Teixeira.
Professores – professora Lurdes leiga, que mal conhecia as letras salteados, mas tentou me ensinar o ABC e Nestor Duarte (o Velho), que generosamente me passou a Cartilha das leis.
Não gosta – gente falsa e plástico colorido, que mostram o que não são.
Bebida – cachaça Jandaia, destilada no alambique do avô de Eraldo Tinoco, atual secretário de Educação.
Doença – agasalha as duas que mais matam no mundo, mas também as melhores, pois não fedem, não transmitem, não doem e uma delas pode me apagar num sopro de brisa. E ainda me dão muita alegria, quando os resultados dos exames são favoráveis, por exemplo: o PSA abaixo de 1 e fibrilação controlada.
O que mais deseja – publicar um livro e que os meus cabritos nascidos na última lua encontrem caçutinga para comer no próximo verão.
Viagens – correu seténs de mundo (Nepal, Índia, Tailândia, comeu pistache no Iran, bacalhau com batata em Macau, bebeu a cachaça de Moscou, e tâmara em Marraqueche. Voltei agora de Itiúba (onde, numa gruta, como todas as santas que se prezam), apareceu Santa Cecília, que foi baleada há pouco tempo e anda com o vergalho de Cristo (salvo seja!), para expulsar os vendilhões que grilam terras.
Orgulho – tentar não tê-lo e nem sentir ódio.
Esporte – futebol jogado com bexiga de boi, cheia com canudo de mamona. E equitação em jumento em pelo.
Medo – de perder a coragem de dizer o que pensa e faz. E de falar em mesa redonda com Cid Seixas, Guido Guerra, Ruy Espinheira Filho, Hélio Pólvora e outros tataús.
Poesia – Meus Oito Anos.