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Da novela ao prazer de ler Os genros

Cyro de Mattos

Apresentação em “Os genros” - segunda edição - 2014

Assim como o romance, a novela é um gênero narrativo, que surgiu com a ascensão da burguesia e se instalou durante o romantismo. A diferença entre novela e romance não é clara. Alguns estudiosos costumam adotar uma distinção mecânica com base no número de páginas ou palavras. A novela conteria a extensão entre cem a duzentas páginas. Seria o meio-termo entre o conto e o romance. O critério quantitativo é falho porque nem sempre pode ser aplicado à prosa de ficção com essa extensão. Com base na estrutura da obra, o critério qualitativo informa que no conto os acontecimentos extraordinários desmembram-se na narrativa linear, o drama manifesta-se como um incidente da vida sob densos conflitos. No romance, emerge o conteúdo do discurso para a representação da vida sob um paralelo de várias ações. Na novela apresenta-se um quadro típico decorrente de uma concatenação de ações individualizadas, que formam os episódios, cenas e situações.

Pelo critério qualitativo,A outra volta do parafuso, de Henry James,O velho e o mar, de Hemingway,As velhas,de Adonias Filho, e Perto do coração selvagem,de Clarice Lispector, textos de ficção com poucos menos de 150 páginas, não são novelas, mas pequenos romances. O narrador interpela o destino da personagem no conto e no romance, enquanto na novela, por ser um relato linear, em essência antianalítico, a narrativa impõe-se com o escritor onisciente. O novelista atua como um demiurgo. O movimento das personagens é sempre controlado por ele, que tudo enxerga e tudo conhece.

O contista e o romancista modernos são narradores que configuram o drama quanto mais é a trama plasmada em pujantes conflitos. O pensamento da personagem revela a vida em transe. Sugere a condição humana no discurso afeito às alusões, monólogo interior ininterrupto ou fissuras e rupturas nas entranhas do diálogo. O novelista dá relevo à narração porque não dispensa as referências objetivas do episódio no tempo linear, com os ingredientes de princípio, meio e fim. O tempo que prevalece no conto e no romance é o psicológico, de duração bergsoniana, que flui no eterno presente. A vida e seu transe transcorrem no interior de cada ser humano. Já o tempo horizontal da narrativa na novela ajusta-se ao quadro e situações que a imaginação inventa com humor e ironia. Dessa forma é que oferece ao perceptor a passagem do tempo para entreter. Pensamentos e lembranças não precisam se impor nos momentos agudos da alma em razão das situações focalizadas.

A infância da literatura brasileira tem como primeiras manifestações da novelaHistória do predestinado peregrino e seu irmão Precito (1628), de padre Alexandre Gusmão, eCompêndio narrativo do peregerino da América (1728), de Nuno Marques Pereira. Essas duas escritas nos primórdios coloniais da prosa de ficção brasileira estão impregnadas da estrutura fundamental da novela: linearidade dos acontecimentos, horizontalidade das personagens e sucessividade episódica

No segundo quartel do século XIX, encontram-se narrativas de ficção construídas sob o esquema da novela; em Joaquim Norberto de Sousa Silva, comAs duas orfãs (1841), e Gonçalves de Magalhães, comAmancia (1848), entre outras. O romantismo não ficou imune à influência da novela com sua forte tradição trazida da península Ibérica. São vistos elementos da estrutura nas narrativas de José de Alencar, no regionalismo e indianismo de Bernardo Guimarães, na prosa de ficção de Joaquim Manuel Macedo e Franklin Távora. O ponto máximo dessas manifestações acontece na novela picarescaMemórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida. Graças à sondagem interior da personagem, no realismo a novela enfraquece, perde terreno para o romance, mas são encontráveis seus remanescentes em obras de Machado de Assis, na primeira fase, e nos romances folhetinescos de Aluísio Azevedo.

Outros ventos prenunciavam tempos novos no início do século XX. Cumprida a sua missão histórica, o parnasianismo e o simbolismo estavam gastos. A Musa Perfeita de Bilac e a Musa Mística de Alphonsus de Guimarães não tinham mais sedução para motivar os autores no ambiente intelectual do ocaso. O fortalecimento capitalista do mundo ocidental expandia-se sob a forma do imperialismo empenhando-se na busca de novos mercados. Contribuía também para essa expansão internacional do capitalismo uma série de avanços extraordinários nas ciências naturais e no campo experimental. As transformações de ordem pragmática tornavam-se visíveis e preponderam na estrutura social do novo contexto. O desenvolvimento armamentista entrava em estado febril. O mundo seria envolvido por duas guerras mundiais, que trariam efeitos nefastos à humanidade. Uma nova época social, política e econômica surgiria apoiada nos princípios liberais do capitalismo. O comunismo, privilegiando as classes operárias no leste europeu, pretendia ampliar o eixo de atuação com o ideal do aproveitamento de uma vida justa e igual para todos.

Uma revolução tecnológica aperfeiçoava as máquinas de combustão, enquanto a utilização da eletricidade nas indústrias fomentava o progresso. Em Portugal, Fernando Pessoa, pela voz incandescida e mente inquieta de Álvaro de Campos, cantaria em “Ode triunfal” a nova revelação metálica e dinâmica de Deus. Sob o signo da técnica, os meios de transportes avançavam. O Brasil procurava beneficiar-se dos meios e recursos que a mecânica proporcionava ao bem-estar da vida. Em suma, ventos sopravam o progresso, a modernidade e a afirmação da nacionalidade. E uma nova época esperava também uma arte nova, que exprimisse a saga desses tempos e do futuro.

O descobrimento de outro Brasil foi feito pelos intelectuais da Semana Moderna de 22, em São Paulo, liderados pelo erudito Mário de Andrade. Depois desse evento, que se constituiu no maior combate que um movimento artístico poderia causar à arte acadêmica do passado, a novela continuou a marcar presença em nossas letras. Prosadores de ficção, no século XX, utilizaram em suas obras recursos peculiares da novela, como Mário de Andrade emMacunaíma, Graciliano Ramos emInfância eVidas secas, José Cândido de Carvalho em O coronel e o lobisomem, Jorge Amado emOs velhos marinheiros, Adonias Filho em Léguas da promissão, José Lins do Rego emMenino de engenho, Érico Veríssimo emO tempo e o vento, Márcio de Souza emGalvez, imperador do Acre, Luiz Berto emO romance da besta fubana, Autran Dourado emNovelário de Donga Novais, Cavalcanti Proença emManuscrito holandês ou a peleja do caboclo Mitavaí com o monstro Macobeba,Rachel de Queiroz emMemorial de Maria Moura, Fernando Sabinoem O menino no espelho eLuís Henrique em O senhor capitão, a heroica morte do combativo guerreiro,entre outros.

O estuário da novela no Brasil proporciona ao escritor Euclides Neto a publicação deOs genros, livro que vem rotulado de romance na primeira edição. Não me parece que seja romance. Trata-se de uma novela realizada por quem conhece a sua arte, fazendo-a escorrer na escrita saborosa sua matéria-prima, que é a vida, dotada de humor e ironia, sutilezas e pensamentos nas relações ridículas. O autor bebe na fonte da sabedoria popular, preenche com habilidade as situações que engendra para as personagens quando fala de fatos corriqueiros, costumes, surpresas e reviravoltas na trama armada pela vida em torno do que ele chama de genrocracia.

Adverte que, quando se pergunta aos meninos espertos de Beira Rio o que pretendem ser na vida, a resposta sem hesitar é: “Quero ser genro!”. O ideal é o sogro ser dono de propriedade mista, com cacau e gado. O genro é pessoa querida, embora cause ciúme aos cunhados. Tem o quarto melhor da casa ou mesmo dos sogros. Possui o cavalo mais vistoso, manso e de boa pisada. “Pode faltar carro para todo mundo, menos para ele, o Príncipe!” Uma maravilha “quando é bonito, louro, olho azul, sério, roupa da moda”. Conforme o caso, pode ser do tipo sonhador.

Beira Rio, pequena cidade reinventada na zona mista de cacau e gado, do sul da Bahia, vive seu grande momento no dia do enlace. É o esperado momento em que o genro consegue se tornar gente importante. Adquire finalmente a sorte grande, o que significa ser dali em diante criatura com fama e posses. Sabedora de que usou para isso a lei do menor esforço, ao se casar com moça rica, que pode ser virgem e recatada, prendada na escola e na cesta de costura, com passagem até na cidade grande. Não importa para alguns genros que tenha sido passada e repassada por outros homens em ardentes e sigilosas aventuras do amor.

Pode-se dizer que a novela é um breve romance anedótico, bem como da sua estrutura apreender-se de que se trata da reunião de casos vulgares, bem contados, ou anedotas esticadas, com as células dramáticas sempre entrelaçadas por um fio condutor da trama narrada linearmente em que entra a sátira e a leveza da ironia. Euclides Neto réune emOs genros uma série de casos pitorescos, que, testemunhados, patrulhados com o faro persistente de Bispo Lopes, acontecem em Beira Rio.

Como no Decamaron, de Boccaccio, cada caso retrata o momento jocoso na comédia da vida. O caso é chamado de peça por esse autor baiano das terras de Ipiaú. Recebe título comprido, contendo expressões engraçadas, algumas retiradas do saber popular. O título assim comprido já prenuncia na síntese da informação que o caso será divertido. De imediato desperta a atenção do leitor. Espicaça a curiosidade em torno do que irá acontecer com as personagens vivendo ações e situações engraçadas. Leia alguns desses títulos. “O amor é uma gas...tu...ra...zi...nha gostosa que cabe dentro de um grão de tempo”, “A vantagem do marido feio: não há cobiça das outras”, “O bocado não é para quem faz”, “Mulher enjoa do marido excessivamente bom”, “Quando a moça casa, os parentes mais chegados casam também um pouquinho”, “O amor se faz rindo e cantando, e não de cara taramelada”, “O homem não é um bicho social; antes, é um animal que procura emoções. A mulher, igualmente”, e “Moça rica carece de enfeite de marido bonito”.

Os contados de Os genros formam uma fieira de dezessete peças, todas elas protagonizadas pela figura dessa personagem produto da relação capitalista, ligada à distribuição da riqueza, à reforma agrária e ao consumo da gasolina, da vida rica que pediu a Deus, sem que com isso se pretenda em drama social palpitante defender qualquer tese social, revela o autor. No regime da genrocracia desfilam os casos que arrastam o leitor com o proseado delicioso de Euclides Neto.

No enlace de Candinha, o autor começa dizendo que ela não era mais de nada, já havia namorado Deus e passada pelo resto do mundo. Experimentara com seu fogo de amor até homem casado. Em estilo primoroso, aceso de lirismo e humor, ele diz:

Ela, efetivamente, perdera a frescura de alface colhido de manhã cedo. Apresentava algumas gorduras menos virginais e, nos olhos, denotava vertigens na gastura do tamanho de um grão de tempo que se chama amor. Faltava-lhe o véu de quem está por detrás do mistério.

Houve festa com bastante bebida e doce, gente que veio de Salvador para ornamentar a igreja. E o doutor Eliziário, um genro moderno, reagia no tocante aos comentários maledicentes. Firme e seguro, atualizado nos conceitos do tabu da virgindade. Ora essa, os tempos agora eram outros, há muito tempo ficaram para trás os sectários preconceitos de antigas gerações sobre o tema excitante do tabu da virgindade.

Já Geraldo, o genro do ricaço fazendeiro Mundão, era frequentador assíduo das noites movimentadas de Copacabana. Não dera para nada. Metido a galã, conhecera a moça Ester no Rio. Com poucos meses, lá estava o candidato a genro em Beira Rio, inspecionando a fazenda. Para apressar o casamento, investiu ali na fenda da moça onde um triângulo coberto de penugem resguarda o melhor prazer do mundo. Com a autoridade adquirida como observador constante dos que viviam no regime da genrocracia, o autor afirma que esse era realmente o genro que melhor aportara em Beira Rio. Uma das qualidades dessa criatura de bons préstimos era satisfazer tudo que alguém da família sonhava. A esposa Ester tinha três irmãs solteiras e um irmão caçula. As três cunhadas adoravam ter Mundão na rima repetitiva da submissão, além de ser agradável a bonita companhia dele. Até a sogra pediu que ele fosse levar o cão Pelé para fazer as necessidades na praia, já que não havia para isso lugar no apartamento.

O pesadelo acontecia no fim do ano, na fazenda, com a família reunida. Ester nem desconfiava das três irmãs se jogando para o cunhado, querendo que Geraldo matasse nelas a fome danada do amor. Até o caçula, agora assumido, de cabelo de mocinha e camisas floridas, dependurou seus olhares lânguidos para cima do cunhado. Longe da mulher Ester, do sogro, sabendo da presença da sogra, já enrugada pelos anos, distante esta da maldade daquelas filhas diabas e da vontade do filho que também queria provar os doces do cunhado, ao chamado do desejo enxertado de febre na volúpia, sob o cerco de cunhadas e cunhado, quem escapou?

Há ainda a ressaltar emOs genros a intervenção subjetiva do autor em muitos trechos. Os comentários jocosos, divagações morais com segundas intenções, anotações tragicômicas feitas sobre o passado ou situações patéticas do presente. Veja-se a cena amorosa de Inês, já meio parecendo laranja podre de um lado, tendo a banda sadia na maior doçura, e Bernardão que chegava firmemente aos trinta anos sem conhecer mulher, concentrado no trabalho de padeiro. O donzelão finalmente é queimado pelas labaredas de Inês, a que achava que o amor tem de ser feito sorrindo e cantando.

Pormenores físicos das personagens, tempo linear em cada episódio, ausência de apreensão psicológica nos conflitos, relato de situações grotescas, interferência constante do autor nas cenas do presente e passado, divagações morais, estrutura narrativa apoiada em células dramáticas formando o processo de um caso puxa o outro, narrador onisciente, todos esses elementos dão a convicção de queOs genros não é romance, mas novela.

A impressão nítida que se tem é de que o autor não quis levar ao outro e ao mundo uma imagem abrangente da existência, funda, profunda. Como se faz no romance. Pretendeu apenas, neste Os genros, metamorfosear uma realidade específica sob o feixe de dezessete casos, empregando na escrita fluente, linear, a sátira e o humor. Em cada caso o leitor toma conhecimento do sorriso de uma geografia humana onde o social apresenta um lado deformado, justamente nas relações ridículas que envolvem alguns componentes do grupo familiar.

Comercinho de Poço Fundo deu a Euclides Neto o posto de escritor importante da região cacaueira baiana. O romance Machombongo coloca-o no ápice de uma produção literária que merece lugar de destaque nas letras brasileiras. A novela Os genros reforça essa posição do escritor, que possui vigorosa impressão digital na recriação da vida através da arte da palavra.

Tão bem conhece a sua região, os costumes, a linguagem e a psicologia de seu povo.

ilustração: Adrianne Gallinari
Cyro de Mattos
Cyro de Mattos: Contista, poeta e cronista. Publicou mais de 40 livros, para adultos e crianças no Brasil e no exterior.